“Uma exposição é para expor, e expor é abrir-se”, diz curador de evento polêmico do MAM que teve criança tocando homem nu

Em entrevista a CULT, o curador do evento Panorama da Arte Brasileira, que está acontecendo no Museu de Arte Moderna de São Paulo, Luiz Camillo Osorio, falou sobre a polêmica da exposição Queermuseu, do Santander Cultural, que incentivava ideologia de gênero, pedofilia, zoofilia, entre outras coisas. Mal sabia ele que pouco tempo depois seria sua vez de se ver em um escândalo semelhante.

Na abertura do evento, uma criança de 6 anos foi induzida a tocar um homem nu e praticar ato libidinoso. Assim que os registros vieram a público, a população se revoltou. Veja o vídeo que circula nas redes sociais desde a noite passada:

Replicamos a entrevista na íntegra:

Sobre o assunto, a CULT conversou com o crítico de arte Luiz Camillo Osorio, ex-curador do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, que já enfrentou uma situação semelhante em 2011. Atual Diretor do Departamento de Filosofia da PUC-Rio e especializado na área de Estética e Filosofia da Arte, Osorio fala sobre a arte como expressão do que é tabu, sobre as razões do incômodo causado pelas obras do Queermuseu e sobre os cuidados que as instituições privadas deveriam ter quando lidam com cultura – especialmente aquelas amparadas pela Lei Rouanet.

CULT – Considera censura o que aconteceu com a exposição Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte Brasileira?

Luiz Camillo Osorio – Acho que fechar uma exposição por conta de protestos sobre o conteúdo das obras é um ato extremo e uma forma de censura. Especialmente neste caso, em que questões relacionadas a gênero e sexualidade estavam sendo trabalhadas pela curadoria. É parte do papel da arte abrir debates sobre formas não canonizadas de comportamento e as instituições devem tomar estas situações como desafios educacionais. Para isso, em vez de fechar a exposição, [o banco] deveria assumir e convocar o dissenso, abrir o debate com as várias vozes e os diferentes tipos de abordagem das questões que estão em foco. Fazer isso com respeito às sensibilidades mais tradicionais. A liberdade de expressão é um princípio constitucional. As instituições culturais deveriam ser as primeiras a lutar por isso e buscar ouvir as vozes discordantes.

Historicamente, casos semelhantes são comuns. Um exemplo famoso é a exposição dos artistas “degenerados”, durante o nazismo na Alemanha de mais de 70 anos atrás. Acha que existe o perigo de um retrocesso tão grande a ponto de a arte se perder, especialmente no contexto de desvalorização da cultura que vivemos atualmente?

Não acho este exemplo bom pois é um outro contexto e uma situação bastante diferente. Eu aproximaria este caso da exposição da Nan Goldin [em 2011] que, antes da abertura, a Oi Futuro decidiu que seria impróprio para seus visitantes (e clientes). Esta exposição acabou indo para o MAM-Rio. Na época, eu era o curador do MAM e ao abrir a exposição recebemos um oficial de justiça com um processo pedindo o fechamento por crime de pedofilia. Conseguimos manter a exposição e a justiça acabou arquivando o processo, garantindo ao museu o direito de manter a exposição.

O que marcou neste caso? Algo pode ser aprendido e reaplicado na questão do Queermuseu?

No arrazoado muito bem feito pelo Procurador encaminhando o arquivamento, ele indica algo que me parece fundamental neste debate jurídico: “A maior demostração de amadurecimento institucional, em uma sociedade democrática e plural, é acomodar as divergências numa moldura de tolerância e reconhecimento da diversidade, até porque o dissenso depende da liberdade tanto quanto a concordância”. Este parecer da Justiça em defesa do museu e da exposição da Nan Goldin deveria servir como jurisprudência em casos de arbitrariedade institucional como a que estamos vendo agora.

É benéfico que um banco abra espaço para uma exposição de arte como a Queermuseu

Um banco investir em uma exposição como esta acho ótimo. O problema é fechar por conta de pressão conservadora. Também acho preocupante que o Estado esteja investindo menos em cultura. Além disso, acho também muito preocupante que o Ministério da Educação esteja inibindo o debate sobre educação sexual nas escolas. Este debate é fundamental para a cidadania e para a pluralidade democrática.

A exposição, embora tenha sido fechada, captou R$ 850 mil via Lei Rouanet. Como vê isso?

Situações como esta evidenciam que centros culturais, mesmo quando bancados por empresas privadas, se recebem apoio via Lei Rouanet e renúncia fiscal, deveriam ter mais cuidado antes de fechar uma exposição e abrir um debate público mais plural e não apenas decidir segundo suas diretrizes de marketing. O centro poderia não ter aceito o projeto, mas fechar uma exposição parece-me uma violência à liberdade de expressão.

Há quem diga que a arte contemporânea pode parecer hermética, inacessível para a maior parte do público. Essa percepção favorece acontecimentos como esse? 

Não acho que haja esta relação. Se a arte fosse mesmo tão hermética, pelo contrário, não incomodaria tanto. Se incomoda a ponto de fecharem arbitrariamente a exposição, é porque a arte toca em pontos delicados e que ficam represados como tabus. No século 21, fechar uma exposição por conta de questões de sexualidade é um retrocesso. Até a novela da Globo fala de transgêneros e de comportamentos sexuais não convencionais – o que é saudável para abrir o debate, falar do que tem que ser falado e desreprimir a expressão da sexualidade. Censurar uma exposição alimenta uma cultura de violência – que é retrato de uma época que dá as costas ao processo civilizatório que vem desde a década de 1960 buscando incluir e dar voz às minorias.

Há como evitar ou prevenir esse tipo de censura? 

Seria o caso de pressionar para que o centro volte atrás e que, em vez de censurar a exposição, abram o debate dentro dela – convidem educadores, sociólogos, psicólogos, psicanalistas, advogados, artistas, curadores, o cidadão em geral para discutir os assuntos mais delicados que estão em exposição. Afinal, uma exposição é para expor, e expor é abrir-se, abrir-se ao debate, ao conflito, à pluralidade e ao respeito às diferenças.

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13 comentários sobre ““Uma exposição é para expor, e expor é abrir-se”, diz curador de evento polêmico do MAM que teve criança tocando homem nu

  1. por favor me mostrem quem é a mãe dessa criança? com certeza deve ser alguma daquelas mulheres que estão rindo da situação vexatória a qual expõe a própria filha! Lamentável

  2. Entendo a opinião dele e respeito sua cultura.
    Mas meu ponto, certamente menos culto e mais básico é simples:
    Sendo dono dessa opinião moderna, ele permitiria que dos fosse a filha dele, de 4 a 6 anos de idade, a ir tocar na “obra de arte”?
    Se ele não permitisse se mostraria um hipócrita, que vomita regras para os outros mas não as segue.
    Se por outro lado, ele permitir que a filha impúbere toque um adulto nu, publicamente, então é um caso médico ou legal, e dessa forma deve ser avaliado.

  3. A busca do novo, do moderno está deformando a visão dessas pessoas. Sem ser considerada conservadora não concordo com a posição desse aí. Em vez de curador deve ser currador.

  4. Falou e não disse nada, formas não canonizadas…..me explica aí o que significa. Só enrolou e não se aproveita nada do que disse. Outro lixo tentando justificar merda. Falta cultura é pra ele que me parece nunca viu verdadeira arte. Não me interessam exposições de idiotas como ele. Lixo, pura merda. Um bosta

  5. Então ele acha normal, uma criança participar desse tipo de liberdade. Está incentivando monstros pedofilos a abusarem com liberdade das nossas crianças. Isso não é arte, para mim é safadeza colocar crianças para participar dessa imundice!

  6. Quanta hipocrisia, desses lixos humanos. Que “debate” uma exposição dessa espécie fomenta?

    Para começo de conversa, debate implica em ouvir lados divergentes de uma questão, deixando-os expressar sem qualquer intimidação. Será, então, que esses merdas se propõem a ouvir respeitosamente os conservadores ou quaisquer outros que não concordem com suas nojeiras? A resposta já é dada nessa entrevista entre camaradas: tanto para o imbecil entrevistado como para a revista de merda quem não comunga do lixo que eles chamam de arte é um censor, obscurantista, retrógrado.

    E essa corja ainda fala em pluralidade, tolerância e respeito às diferenças. Plural, desde que singularmente alinhado com as porcarias deles. Tolerante apenas com quem concorda. Respeito às diferenças? Quem pensa diferente é taxado logo de censor nazista, fascista, o escambau.

  7. E atentem bem:

    A comparação com o movimento nazista contra o que chamavam de arte degenerada é um FALÁCIA, não somente por conta de contexto histórico, mas também porque naquele caso, aí sim, a motivação era fundamentalmente de ordem estética. Além disso, consistiu em censura, de fato, porquanto foi um controle imposto pelo poder público, não o resultado da natural indignação popular diante de fajutices criminosas.

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