Lucas Berlanza: “PT não é capaz de triunfar em eleições justas”

Lucas Berlanza, autor do livro “Guia Bibliográfico da Nova Direita: 39 livros para compreender o fenômeno brasileiro”, concedeu uma entrevista para o site O Congressista.

Confira:

O Congressista: É possível dizer que desde as primeiras informações sobre o impeachment de Dilma Rouseff até o presente momento, o Brasil viu renascer movimentações “de direita” na política ou na sociedade?

Lucas Berlanza: Apesar de possível, não me parece um raciocínio completo. Em meu próprio livro, “Guia Bibliográfico da Nova Direita: 39 livros para compreender o fenômeno brasileiro”, eu adoto a expressão “nova direita” para me referir ao que considero ser – e estou longe de estar sozinho em adotar essa acepção (também apontada na linha editorial de O Congressista) – uma autêntica emergência ou, mais apropriadamente, um “redespertar” de ideias de matrizes liberais e conservadoras, que passaram considerável tempo em relativo ostracismo. 

Convém destacar que esse ostracismo não equivale a nulidade absoluta; figuras como Roberto Campos, Merquior, o professor Ricardo Vélez, Donald Stewart Jr., entre outras, atuaram durante os estertores do regime militar e a edificação da assim chamada Nova República; mas é impossível negar a absoluta preponderância das esquerdas, cuja companhia mais relevante socialmente não era a “direita”, mas sim o fisiologismo e o clientelismo, dos quais ela própria se serviu. 

Então, podemos estabelecer nos governos do PT, com a saturação a que conduziram o ânimo brasileiro, um marco para o novo recrudescimento dessas ideias, sob nova roupagem, com novo fôlego e nova organização. Esse processo, porém, me parece ter começado algum tempo antes que se cogitasse o impeachment de Dilma; o que o anseio pelo impeachment possibilitou foi uma bandeira mais coesa em torno da qual toda essa demanda reprimida se pôde reunir, o que parece ter contribuído, também, para uma maior organização de movimentos e instituições em torno dessas perspectivas. 

A “nova direita” é, portanto, um pouco anterior a 2014 e 2015, mas ganhou nesses anos maior densidade e atenção, bem como, literalmente, ganhou as ruas.

OC: Qual foi o maior estímulo para o surgimento dessa “nova direita”: a crise política, a crise econômica ou a crise moral?

LB: Em primeiro lugar, embora as “crises” sejam o grande fator de eclosão, não aprecio diminuir o valor dos esforços que possibilitaram tudo isso. O Instituto Mises Brasil foi fundado em 2007, o Instituto Liberal foi assumido pela diretoria encabeçada por Rodrigo Constantino em 2013. Todas essas e outras pessoas e instituições são fundamentais para que um cabedal de princípios, sobretudo de base bibliográfica, assumisse relevância na caracterização de uma faceta mais intelectualizada dessa “nova direita”. 

Entretanto, se formos investigar o catalisador nuclear de certo nível de reação no povo brasileiro, me parece que esse catalisador seria o “bolso”, isto é, a dimensão econômica. Claro que o ideal é que não se pare aí, e muitos não pararam; aproveitaram a economia como um “sinal de alerta” para perseguirem a informação e darem conta de uma compreensão maior do conjunto dos nossos problemas. Mesmo assim, o impulsionador para a maioria é certamente a insatisfação com as finanças e o padrão de vida. 

Um outro contingente – e nesse caso posso falar por experiência própria -, que imagino não ser numericamente irrelevante, se aproximou por cansaço: a exposição incessante, em ambiente escolar e universitário, ao mesmo discurso, arrogando-se o monopólio da virtude, tornou-se tão insuportável que mesmo em alguém como eu, que jamais fui de esquerda, estimulou um envolvimento mais ativo e apaixonado pelas ideias capazes de se contrapor a esse status quo. 

OC: As manifestações de rua pelo “fora Dilma” de alguma forma podem ter criado uma identidade pragmática para que esse conjunto de pessoas passasse a combater a esquerda? Ou a movimentação foi mais genuína de combate à corrupção?

LB: Os protestos contra Dilma nas ruas, em verdade, assumiram as proporções mais acuradas e sofisticadas de um brado antipetista e antibolivariano. Embora a economia fosse o gatilho, as pessoas vestiam as cores pátrias e bradavam que a bandeira brasileira jamais seria vermelha. Atacavam também o “criador” de Dilma, Lula, até então quase intocável; gritaram que não queriam uma vinculação ao projeto ideológico triunfante em Cuba ou na Venezuela. 

Isso foi muito mais do que um protesto contra a “corrupção”, por exemplo. Foi um movimento realizado, definitivamente, para frear uma escalada autoritária bastante palpável, em todos os sentidos. Praticamente todos os grupos contrários à esquerda, integrantes desse conceito genérico que chamamos de “nova direita”, podiam se reconhecer e aglutinar em torno desse anseio. Suas diferenças internas, pragmaticamente, naquele momento, careciam de importância.

OC: Até que ponto a falta de cultura política dos brasileiros, no sentido de conhecer as mais variadas correntes de pensamento econômico ou filosófico, pode atrapalhar na luta contra a esquerda, principalmente na questão cultural?

LB: A falta de instrução e de ferramentas cognitivas, não apenas no que diz respeito à política, nunca é algo a ser celebrado e é sempre um instrumento útil a projetos de poder eivados de más intenções. Por outro lado, não se pode esperar, em praticamente nenhum lugar do mundo, que toda a população tenha o mesmo interesse nesse campo temático, ou a mesma formação personalizada em uma determinada direção ou tendência. Acredito, como diz Irving Babbitt em seu “Democracia e Liderança”, que mesmo a vida democrática não prescinde de lideranças. 

Sempre haverá aqueles mais capazes de aglutinar pessoas em seu entorno, ou mesmo mais interessados em assumir esse papel. É certo que é preciso formar essas lideranças, equilibrar a disputa nos pontos e funções estratégicos da sociedade, e também sanear e enriquecer a conexão de todo brasileiro com a sua cultura nacional, erudita, política ou popular, bem como municiá-lo com o mínimo de condições para alcançar a razoabilidade na avaliação do quadro que o afeta. Ainda assim, frise-se, seria uma vã ilusão desejar que todos leiam Edmund Burke ou se digam “de direita” para atingir esse objetivo. 

OC: O que falta para as ideias liberais e conservadoras serem disseminadas com mais eficiência no nosso país? Como os últimos governos, principalmente o da Dilma, por ter sofrido impeachment, podem ajudar nesse trabalho?

LB: Começando pelo final: os governos petistas fornecem o exemplo prático ideal para o que não se deve fazer. É assim que podem ser aproveitados por liberais e conservadores, como já estão sendo. Não pairam dúvidas de que suas consequências desastrosas foram protagonistas na eclosão da nossa grande “janela de oportunidades” no mercado de ideias. Não detenho nenhuma grande receita estratégica, mas acredito que algumas posições devem ser adotadas para catapultar a divulgação dessas ideias. 

Uma articulação mais efetiva – em alguns aspectos, até profissional – entre forças e iniciativas que caminham nessa direção é uma delas. A prudência na condução dessas iniciativas, com lideranças demonstrando capacidade de contemporização e de entender o lugar e o momento de cada coisa, é outra. Perdemo-nos comumente em disputas pueris e afobações, julgando iniciativas intelectuais sob os mesmos critérios com que julgamos o mundo político-partidário, ou vice-versa; em alguma medida, confusões compreensíveis de um processo ainda novo e incipiente. 

Também nos falta a multiplicação da nossa mensagem pelo humor e pela arte. Finalmente, atendendo aí a um sentimento bastante pessoal, acredito na necessidade de um revestimento maior de nossas bandeiras com referências nacionais; não acredito em movimentos políticos que se fundamentem apenas na demolição e não desejem falar à autoestima da comunidade nacional a que se dirigem. Sou um patriota incorrigível – tal como o foram muitos conservadores e conservadores liberais, como Reagan, Thatcher ou Carlos Lacerda. Essa é a linguagem que eu falo. Certas alas da direita deveriam ser ignoradas ao exigirem que tenhamos absoluta vergonha da nossa origem.

OC: É possível dizer que o PT caminha para o calvário? E com relação aos demais partidos médios e grandes, eles darão a volta por cima nessa crise de identidade política ou você acredita convictamente que mudanças profundas irão acontecer já no próximo pleito?

LB: Ao mesmo tempo em que não aprecio a ideia de subestimar o oponente, acredito mais no fortalecimento de outras saídas pela esquerda que em uma recuperação do PT. Não me iludo em crer que o lulismo perdeu completamente o seu império sobre os corações emotivos e as mentes pérfidas, mas hoje eu apostaria que não é capaz de triunfar em eleições justas. 

O problema é que se torna difícil especular qualquer coisa sem as regras do jogo para 2018 estarem estabelecidas. Há dificuldades consideráveis de consenso sobre a reforma política e candidatos com potencial de surpreender ou de assumir o protagonismo nas eleições presidenciais estão sob ameaça de processos que podem tirá-los do pleito. Por enquanto, o que observo é que continua não havendo uma maciça identificação da população com qualquer partido, e sim a devoção a determinados nomes ou personalidades, à revelia de conteúdos programáticos ou agendas. 

Dada a nebulosidade, não aposto em mudanças profundas, mas acho viável – quero crer – que candidaturas legislativas de viés liberal e conservador ganhem corpo. É importante alastrar o debate para outros cargos que não apenas a presidência da República, e alguns movimentos organizados já entenderam isso. Precisamos tentar aproveitar as oportunidades abertas pela quadra histórica e arregaçar as mangas, de qualquer forma, e não aguardar por milagres.

Matéria original: http://www.ocongressista.com.br/2017/09/entrevista-autor-de-livro-sobre-nova.html

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