Livres para rejeitar: “Boicote não é censura e nem fascismo, é liberdade”

Um editorial da Gazeta do Povo deu conta de abordar todos os pontos relativos ao caso Santander. Abaixo, republicamos literalmente o que foi postado pelo jornal:

Um dos grandes méritos da economia de mercado é seu respeito à liberdade. Qualquer pessoa pode empreender, em qualquer atividade lícita de sua escolha, seja em um ramo novo e inovador, seja em uma área já consolidada, concorrendo com outros estabelecimentos. Já os demais indivíduos, consumidores, terão à disposição uma ampla gama de serviços e produtos, que tendem a ser cada vez melhores e mais baratos quanto maior for a concorrência entre os fornecedores. Quando não se introduzem regulações injustas ou reservas de mercado, o resultado é a primazia da liberdade: empreendedores disputando a preferência de consumidores usando todas as estratégias lícitas à sua disposição: preços baixos, qualidade superior, atendimento mais personalizado, publicidade cativante.

Entre essas estratégias também está o engajamento com determinadas causas, que vão das hiperlocais até as globais. Empreendedores que assim o desejarem, dentro desse ambiente de liberdade, têm todo o direito de colocar o peso (e o dinheiro) de suas empresas em prol de iniciativas que considerem meritórias: a recuperação de uma área degradada, a promoção de uma determinada atividade esportiva ou cultural, a conscientização sobre certo problema social, a defesa de uma minoria… o leque de causas é infinito, e essa atuação cria identificação com os consumidores que compartilham da mesma mentalidade. O empresário é livre até mesmo para optar não se envolver com nenhuma causa ou atividade que extrapole o âmbito da atividade econômica que desempenha, mantendo-se neutro e concentrando-se apenas em fazer o que faz de melhor.

Boicotes têm sido uma ferramenta especialmente usada pela comunidade LGBT

Mas, assim como os empreendedores têm a liberdade de se engajar com certas causas, o consumidor que delas discorda também pode rejeitar essa identificação e, por causa disso, mudar seus hábitos de consumo e influenciar outros a fazer o mesmo. Entramos, aqui, no terreno dos boicotes. Também eles são uma expressão de liberdade: o indivíduo voluntariamente priva a si mesmo de determinado produto ou serviço, com todos os custos que isso implica, especialmente se a pessoa era cliente ou consumidora habitual, vendo-se forçada a buscar substitutos ou passar pelo calvário burocrático de um cancelamento.

Boicotes têm sido uma ferramenta especialmente usada pela comunidade LGBT. Quando os estilistas Domenico Dolce e Stefano Gabbana, eles mesmos homossexuais, se disseram favoráveis à família natural, o cantor e compositor Elton John convocou um boicote aos produtos da grife. Em 2013, Guido Barilla, presidente da empresa de massas que leva seu sobrenome, disse a uma rádio italiana que os anúncios publicitários da marca só teriam famílias tradicionais, também foi alvo de boicote. E um caso especialmente emblemático é o de Brendan Eich, criador do JavaScript. Em 2008, quando os californianos votaram em plebiscito sobre o status do casamento homoafetivo no estado, Eich havia doado US$ 1 mil para a campanha favorável ao casamento natural. Poucos dias após Eich se tornar CEO da Mozilla, começou uma campanha de boicote ao navegador de internet produzido pela empresa. Mesmo defendido por funcionários e executivos, que informaram jamais ter presenciado algum ato discriminatório cometido por Eich contra homossexuais, ele pediu demissão do cargo.

Quando boicotes e outros protestos pacíficos dão resultado, estamos diante de uma situação de empoderamento do indivíduo, sozinho ou organizado, diante de um ente que, às vezes, dispõe de um poder econômico formidável. A Barilla é hoje reconhecida como “empresa amiga dos LGBT”. A empresa aérea United Airlines certamente passou a cuidar melhor dos instrumentos musicais de seus passageiros depois que Dave Carroll se tornou um sucesso na internet com a canção United breaks guitars (“A United quebra violões”), inspirada na sua experiência, quando funcionários da companhia quebraram seu violão durante um voo e a empresa se negou a pagar uma indenização.

Tudo isso nos traz ao recente caso da exposição Queermuseu, promovida pelo Santander Cultural em Porto Alegre. A indignação popular diante do conteúdo de algumas obras expostas (que tinham conteúdo sexual explícito ou zombavam da religião cristã) e do fato de crianças estarem frequentando a mostra levou a um boicote que, por sua vez, fez o banco encerrar a exposição antes do previsto. Mais uma vez, o resultado de uma combinação de ações livres: pessoas comuns começaram a protestar e cancelar livremente suas contas e cartões – e qualquer brasileiro sabe bem o nível de transtorno que tal atitude exige – e o Santander, depois de analisar a reação e os cenários possíveis, optou, também livremente, por encerrar o evento.

Há boicotes “do bem” e boicotes “do mal”? Esse julgamento é subjetivo e depende única e exclusivamente da convicção ideológica/moral de quem avalia. O que não se pode é deslegitimar o boicote e o protesto como ferramentas legítimas à disposição do indivíduo livre para manifestar sua opinião, sempre que não desrespeite direitos alheios (uma coisa é cancelar uma conta bancária, outra seria impedir o acesso de pessoas interessadas em ver a exposição). Seria perfeitamente lícito, por exemplo, organizar um “contraboicote”, prestigiando a instituição ou empresa que está sendo criticada – um novo ato livre em resposta a um exercício anterior da liberdade.

Mas a reação de muitos dos que gostariam de manter o Queermuseu funcionando não tem se pautado pelo respeito à liberdade de quem protesta ou boicota. São frequentes acusações de “censura”, uma estratégia que se aproveita da memória recente do país, submetido à ditadura militar que censurava a imprensa e manifestações artísticas. A censura, no entanto, envolve uma imposição estatal (ou alguma situação análoga que envolva uma grande assimetria de poder), e todo o episódio do Santander Cultural não teve um milímetro de intervenção do poder público. Mais absurdas ainda são as alegações de fascismo ou comparações com o nazismo, ideologias que negam a liberdade individual que está na raiz da decisão de boicotar uma empresa. Agir dessa forma só mostra um desejo de vencer o debate sem apresentar argumentos e de suprimir a liberdade alheia quando o outro tem convicções diferentes.

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