Mundo está rejeitando carne brasileira por causa de pagamento de propina da JBS a fiscais

Em depoimento à Procuradoria-Geral da República, um dos donos da JBS, Wesley Batista, admitiu que a gigante de carnes pagava um “mensalinho” entre mil reais e R$ 20 mil a fiscais do Ministério da Agricultura, com o objetivo de ter agentes sempre à disposição dos frigoríficos do grupo e de facilitar a concessão de laudos. Há suspeita de que 200 profissionais estivessem na lista da JBS. Na avaliação de autoridades e empresários, o conteúdo da delação premiada, revelado ontem pelo jornal “Valor Econômico”, atrapalha ainda mais as negociações entre o governo e os países importadores para a reabertura dos mercados para a carne do Brasil.

“Isso é um desastre! Embora o produto brasileiro tenha qualidade, a Agricultura perdeu credibilidade. Para o importador, não há diferença entre o fiscal corrupto porque ganhou mil reais para fazer hora extra ou autorizar a venda de produto estragado”, afirmou Pedro Camargo Neto, vice-presidente da Sociedade Rural Brasileira.

A notícia não poderia ter chegado em pior momento, reconhece uma fonte do governo. Ontem, uma equipe do Ministério da Agricultura iria se reunir, em Washington, com autoridades sanitárias dos EUA, para tentar liberar as exportações de carne bovina in natura àquele país. Washington suspendeu as importações há algumas semanas, alegando problemas na composição da carne decorrentes da vacinação contra febre aftosa.

“O mundo assiste de camarote a tudo o que se passa no Brasil. Esse tipo de caso leva os estrangeiros a pensarem que a corrupção está enraizada em todos os setores, o que não é verdade”, lamentou o presidente da Associação Brasileira de Comércio Exterior do Brasil, José Augusto de Castro.

O primeiro golpe nas exportações brasileiras ocorreu em março deste ano, com a deflagração, pela Polícia Federal, da Operação Carne Fraca. Foi revelado um amplo esquema de corrupção em que servidores públicos federais repassavam laudos fraudados a frigoríficos garantindo a qualidade da carne.

A partir de então, diversos mercados aplicaram medidas para restringir as importações brasileiras. A União Europeia manteve as compras de carne bovina, mas avisou: o sistema de controle sanitário de alimentos do Brasil é deficiente e não fiscaliza como deveria.

O secretário executivo da Agricultura, Eumar Novacki, disse ao GLOBO que aguarda a divulgação da lista de fiscais que estariam envolvidos no esquema do “mensalinho”. Novacki afirmou que não há notícias de outros frigoríficos, além da JBS, nesse sistema: “Assim que a delação saiu, a Agricultura abriu procedimento administrativo para apurar o fato. Também oficiou o Ministério Público Federal solicitando a lista dos envolvidos. Os servidores que estiverem na relação serão devidamente punidos.”

Na delação, Wesley afirmou que “sempre foi prática corrente no mercado de frigoríficos o pagamento mensal” de até R$ 20 mil para agentes do Serviço de Inspeção Federal (SIF) que atuam fora da jornada de trabalho.

As normas determinam a presença permanente de ao menos um fiscal do SIF nos frigoríficos destinados ao abate de animais, para emissão dos certificados sanitários e das guias de trânsito dos produtos. Na delação, Wesley disse que não há fiscais suficientes para atender aos horários de produção da JBS:“A fixação do valor mensal de pagamentos aos AFFAs (auditores fiscais federais agropecuários) por seu trabalho em horas extraordinárias ou sobreaviso era feita localmente (…) A remuneração em questão visava a compensar os AFFAs para que se dispusessem ao trabalho em período extraordinário ou em regime de sobreaviso”.

Uma graduada fonte do governo afirmou ao GLOBO que há suspeita, porém, de que a JBS esteja trabalhando em seus depoimentos para ampliar a deficiência do sistema de controle sanitário brasileiro de forma a abrandar irregularidades cometidas pela empresa. Isto porque tem plantas em outros países, como EUA, Austrália e Argentina, e quer evitar questionamento de suas práticas.

As informações são do jornal O Globo.

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