Odebrecht diz que avisou ‘Pimentel, Palocci, Guido e Giles’ sobre ‘contaminação’ da campanha de Dilma

O empresário Marcelo Bahia Odebrecht diz que à partir de novembro de 2014 avisou os principais assessores que cercavam a presidente Dilma Rousseff sobre os riscos de “contaminação” da campanha presidencial, por pagamentos feitos ao marqueteiro João Santana, em conta secreta na Suíça, utilizando a máquina de fazer propinas do grupo, o Setor de Operações Estruturadas.

“Eu levei esse tema à (Fernando) Pimentel, eu mostrei a planilha, porque sabia que Pimentel tinha acesso à Dilma, eu levei ao Giles (Azevedo), eu levei ao (Antonio) Palocci, eu levei ao Guido (Mantega), eu levei a quem eu podia. Levava e dizia: “gente, isso aqui vai contaminar.”

No Termo 19 da delação premiada, Odebrecht fala sobre os repasses de dinheiro à “Feira”, o codinome criado para João Santana e sua mulher e sócia, Mônica Moura, a pedido do PT.

O partido, por meio da relação entre o patriarca Emílio Odebrecht e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva abriu uma “conta corrente” que chegou a ter R$ 200 milhões disponíveis para gastos – parte o por doações oficiais e a maior parte pelo setor de propinas do grupo.

“Quando começou a Lava Jato, eu nunca procurei acompanhar como era pago, aí eu procurei saber como era feito. Aí surgiu a primeira questão que eram os depósitos para Paulo Roberto (Costa, ex-diretor da Petrobrás, primeiro preso e delator do escândalo)”, contou Odebrecht. (Veja à partir do minuto 12 do vídeo).

Em 2015, a força-tarefa descobriu recebimentos em conta secreta do delator de offshores ligadas à Odebrecht. Com documentos enviados pela Suíça, a Lava Jato começa a descobriu a rede de contas secretas do grupo.

O delator diz ter chamado na época o chefe do Setor de Operações Estruturadas, Hilberto Mascarenhas da Silva Filho, e perguntado quais “depósitos tinham sido feitos no exterior por conta da campanha da Dilma”.

“Na época, ele dizia que não tinha registro nenhum, porque não era para ter registro. Um mês depois  me apareceu com uma planilha e disse: ‘olha Marcelo a gente conseguiu tabular uma planilha de depósitos’. Era mais ou menos novembro de 2014, dava uns US$ 25 milhões.”

O chefão do setor de propinas teria dito que não sabia precisar qual valor era entrega de dinheiro em espécie no Brasil e qual era transferência no exterior. “Hoje a gente sabe que no sistema diz isso.”

Sabiam. O diretor-presidente da Odebrecht, afastado desde que foi preso pela Lava Jato, explicou a importância da informação. “Preciso ter essa informação para usar com meus interlocutores, para dizer do risco que tem. Porque na hora que descobrirem isso, vai contaminar tudo!”

O delator diz que a primeira pessoa que buscou foi a mulher do marqueteiro do PT. Ele relata como foi a conversa em sua casa, a mansão em São Paulo, onde foi preso no dia 19 de junho de 2015.

“Falei: ‘Mônica, a gente descobriu que vocês tinham vários depósitos no exterior’.

Responsável pela contabilidade dos negócios de Santana e mais nova delatora da Lava Jato, Mônica teria dito ao empreiteiro para não se preocupar. “‘Não se preocupe Marcelo, porque os depósitos que recebi de vocês em offshores no exterior se referem a serviços prestados no exterior, não tem a ver com o Brasil’. Hoje a gente sabe que uma parte era. Eu falei: ‘Mônica, isso aí vai contaminar de qualquer maneira’.”

Para o delator, que era quem centralizava os repasses da Odebrecht para as campanhas presidenciais, disse ter tido a sensação de que a justificativa dada pela mulher de Santana “talvez seja a razão” de os “interlocutores” nunca se mostrarem preocupados.

“Mesmo aqueles que se mostraram preocupados quando mostrei a informação, depois voltava e se despreocupavam, A impressão que eu tinha é que a Mônica sempre dizia para eles ‘não se preocupe que todos esses depósitos se referem a serviços de outras campanhas no exterior.”

No depoimento que prestou para o juiz federal Sérgio Moro, dos processos da Lava Jato, em Curitiba, na última semana, Mônica Moura confirmou que os valores repassados em offshore do casal na Suíça, em 2014, seriam referente a campanhas no exterior.

“Se foi pagamento por offshore, foi pagamento do setor de operações estruturas. Era uma regra para não contaminar os contratos do grupo.”

No depoimento, Marcelo conta que foi o chefe do setor de propinas que deu o apelido “Feira” e que Dilma sabia que a maior parte do valores pagos para Santana eram caixa 2.

Segundo ele, no começo das campanhas, “Palocci e Guido pediam para “dar um conforto” a João Santana”, comprometendo-se a garantir os pagamentos pelas milionárias campanhas.

Para Marcelo, o setor de propinas pode responder se os pagamentos de 2014 para o marqueteiro tem relação com a conta “Italiano”. Ele lembrou que nã época, o casal fazia campanha em Angola, e que era algo fora dessa conta controlada por ele e Palocci.

Mas lembrou que Santana recebeu no exterior por campanhas como a de El Salvador, que foram descontados da “conta corrente Italiano” a pedido do PT.

O PT, por meio de sua assessoria, nega irregularidades nas campanhas e diz que as contas foram aprovadas pela Justiça Eleitoral.

A matéria é do Estadão.

Anúncios

Deixe uma resposta